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O Desaparecimento do Respeito – Crônica de uma Época Morta
Sumario
O Mestre e a Vã Glória
Permita-me, Leitor, iniciar este Memorial com a descrição de um tempo que jaz sepultado sob a poeira da pressa e o esquecimento voluntário. Referimo-nos àquela era singular, decerto não mais virtuosa, mas certamente mais decorosa, em que o Mestre de Instrução não era mero funcionário, mas sim uma espécie de magistrado das almas. Ah, que tempo!
O Professor, veja bem, não precisava pleitear a deferência; ela lhe era devida. Não por um excesso de virtude do Povo, mas por um cálculo social elementar: aquele que detinha a chave da leitura e do número era, ipso facto, a Autoridade Máxima na sala. Um pequeno reinado de giz e tábuas, onde a palavra do Mestre era lei inquestionável, e o silêncio do aluno, obediência filosófica e inquestionável. Não se tratava de adoração, Leitor, mas do respeito frio e calculado que se presta a quem possui o que nos falta. Ter tal profissão era, na balança social, um máximo a ser alcançado, um título que se impunha sem o auxílio de gritos ou de súplicas.
A Patologia do Presente
Mas os anos, que a tudo corroem, são mestres na arte da inversão. E aqui reside a melancolia de nossa crônica: O que aconteceu hoje? O Mestre de outrora, o arquiteto da razão, é hoje um mendicante institucional. Um ser obrigado a descer à rua, ao asfalto infame, a fazer greve para suplicar pelo que é básico – o mínimo do mínimo que um animal de carga exige pelo labor.
Não se engane, Leitor, este não é um drama econômico apenas, mas um sintoma de dissolução. A sociedade, ao aviltar o salário do Mestre, declara que o Saber perdeu seu valor de troca, que a instrução é um luxo desnecessário. O Professor hoje veste a farda do protesto, não mais a toga da sapiência. E se a sua dignidade jaz esmagada, que se dirá da nossa, que assistimos a tudo com a complacência de quem degusta um bom café?
III. O Espetáculo do Ultraje
Ligo a televisão – essa janela indiscreta que nos serve de consciência e de anestesia – e sou confrontado com cenas que pertencem ao domínio do nefando. O que antes era exceção hedionda, hoje é rotina: Professor sofrer violência em sala de aula se tornou algo comum e corriqueiro.
A agressão já não provoca o choque moral; apenas preenche o tempo dos noticiários antes da previsão do tempo ou do preço da bolsa. O corpo do Mestre, outrora intocável, tornou-se o tablado onde a insolência juvenil ensaia seus primeiros e agressivos passos. Onde está, pergunto eu, o escrúpulo que definia o nosso trato social? Sumiu, Leitor, volatilizado no ar rarefeito da falta de limites.
A Apologia do Vândalo
E aqui chegamos ao cerne da inversão moral, à metafísica do contrassenso. O aluno desobediente, aquele que cultiva o ócio e a preguiça intelectual, que atrapalha a aula por prazer e afronta o Mestre como se fosse um adversário digno, esse indivíduo não é mais reprimido. Pelo contrário! Ele se torna herói.
O ato de enfrentar o Professor – a autoridade do saber – virou algo bom na internet. A humilhação filmada, o desrespeito compartilhado, o vício celebrado com a efêmera moeda do like. O Mestre, que tenta preservar a ordem, é visto como o carrasco; e o vândalo, que destrói o ambiente do estudo, ascende ao posto de justiceiro digital. Nenhuma nação pode prosperar quando o aplauso é dado ao que destrói a própria fonte de seu futuro.
O Cisma da Ignorância
A que ponto esse país chegou? Perguntamo-nos, com a testa franzida. E a resposta é simples: Chegou ao ponto onde a ignorância tem mais valor de mercado que a instrução. É de senso comum – essa voz indistinta que, por vezes, acerta no alvo – que somente as nações que honram o Saber e a boa educação ascendem à condição de países de Primeiro Mundo. A educação é o cimento invisível da prosperidade.
E o Brasil? Onde se situa este nosso imenso e paradoxal território nesse panorama? Na melancolia da periferia existencial. Flutuamos, Leitor, entre o sonho do avanço e a realidade do retrocesso, porque nos recusamos a admitir a premissa fundamental: não se constrói um futuro sólido sobre a areia da vulgaridade.
A Escolha da Banalidade
Parece-nos, por vezes, que a engrenagem pública brasileira foi montada para que o bom não floresça e o correto seja punido. Não há estímulo para o esforço, para o mérito silente. E aqui reside a tragédia mais prosaica: a falta de discernimento popular.
Façamos o teste, Leitor. Se interpelarmos a maioria dos brasileiros na rua, perguntando quem é o melhor jogador de futebol atualmente, a resposta jorra imediata, precisa. O drible, o golo, a fortuna – quase todos saberão a resposta. Se mencionarmos aquele cantor que vive da apologia ao vazio e do denegrir do cidadão correto – aquele que vive do escândalo e da coisa errada – também teremos a resposta pronta, o nome na ponta da língua, o ritmo no sangue.
VII. A Sombra do Progresso
Mas a glória que se constrói no silêncio, o suor que se verte em laboratório, a mente que se curva sobre fórmulas e experimentos para estender a vida, ou desvendar a doença – esse trabalho fundamental quase ninguém sabe.
Onde estão os nomes das pessoas que realmente fazem algo importante pelo Brasil? Onde está o reconhecimento público pelos nossos cientistas, esses heróis de jaleco que lutam uma guerra invisível? A tristeza que nos invade não é um mero sentimentalismo; é a constatação de nossa profunda e abjeta hipocrisia nacional. Celebramos o ócio e ignoramos o engenho. Honramos o efêmero e desprezamos o essencial.
Não me refiro apenas aos políticos, Leitor, cujo ofício, embora nobre em teoria, é muitas vezes caricato na prática. Falo do povo comum, de você, de mim, que assistimos a essa desgraça com a indiferença calculada de quem assiste a uma peça de teatro mal encenada.
VIII. A Exortação do Narrador
Pois bem. O espetáculo do Memorial caminha para o seu fim. Permito-me, com a elegância de um coveiro e a franqueza de um filósofo cínico, dirigir-lhe a derradeira e mais direta pergunta, a que define o nosso status quo moral e intelectual:
Você que está lendo, que acompanha o drama do Mestre e o triunfo do vício, que chora a sorte da Nação e deplora a inversão de valores, sabe citar o nome de três cientistas brasileiros?
Se o silêncio lhe servir de resposta, Leitor, não se preocupe: você é apenas mais um no vasto rebanho. E a nação, que prefere o nome do craque ao nome do gênio, já tem o destino traçado, escrito em letras miúdas nas páginas de um livro que jamais será lido.












